quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

FICHA TÉCNICA

FICHA TÉCNICA DO CURTA-METRAGEM “DA JANELA”

DIREÇÃO: Giovana Zimermann E Sebastião Braga,
ROTEIRO E STORYBOARD: Giovana Zimermann,
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Sofia Mafalda E Fabiola Becker
EDIÇÃO: Tiago Santos,
ELENCO: Elianne Carpes, Giovana Zimermann, Luiz Claudio Leite,
Marcos José Santin, Marta Cesar E Noara Quintana.
PREPARADORA DE ELENCO: Elianne Carpes,
DIREÇÃO DE ARTE: Lina Lavoratti,
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Martin Carvalho,
ELETRECISTA: Dill,
TRILHA SONORA: CURANDERA: COMPOSIÇÃO E VOCAL: Guilherme Zimermann Kummer
ARRANJO MUSICAL: Frederico Teixeira e Du Gomide.
STILL: Anelise Borges.

TRADUÇÃO ESPANHOL: Alejandra Maria Rojas Covalski
TRADUÇÃO EM FRANCÊS: Clarissa Laus

ASSISTENTEDE DE ARTE: Stella Bloss, Figurino: Moara Costenaro
ASSISTENTES: Silvio César e Lua
MAQUINISTA: Ricardo Xará
SOM DIRETO: Paraíba
MAKING OFF: João Abreu Dias
DESIGN GRÁFICO: Giovana Zimermann

NEURÉTICA (Kant com Sade)




Giovana


Obrigada pelas palavras - em especial o recorte sobre o Pathos
[1] veio muito a calhar com o que ando pesquisando. Estou escrevendo o projeto para o doutorado sobre Literatura e Pulsão de Morte (essa força interna que nos leva para a destruição e para a finitude, mas que é tb o q possibilita a vida). Um tempo atrás, no grupo Escrita e Psicanálise, quando estudávamos o seminário da Ética de Lacan (onde ele fala das tragédias gregas), escrevi um textinho que agora compartilho com vc:

Kant com Sade – sobre “neurética”

Não cessa de não se calar em mim a interrogação sobre os olhares possíveis para o sofrimento – ou seria para o sofredor? Dependendo do olhar (ou melhor, do sujeito que olha) vê-se um herói, um masoquista, um miserável e/ou o belo.
Que relação existe entre a vítima, o belo e o sofrimento? Existe tudo isso sem a lei? Existe vítima sem carrasco? Existe prazer e gozo no sofrimento? E no fazer sofrer? Mas, afinal, o que é o sofrimento?
Parece que a escrita tem uma relação privilegiada com a fantasia, que é nada menos que um dos pilares que sustentam as questões acima. Além disso, a ética se coloca também como conceito fundamental nesta discussão. Sade coloca que a escrita pode fazer ver o que do homem existe em potência, o que ele pode vir a ser caso se deixe mover pelas paixões (no sentido de Pathos, paixão/sofrimento). Não foi isso que fez Antígona?
Sade fala de vítimas ornadas de belezas – e Lacan também. Freud falava em miséria neurótica. Sade também? Qual a relação entre a miséria, o sofrimento e o belo? Certamente não responderei agora. Mais Kant, mais Sade, mais Direito, mais Literatura, e mais tinta na pena...

Não sei exatamente porque lembrei dele hoje, acho que tem a ver com o que você traz sobre o sofrimento psíquico que não deixa marcas visíveis - mas certamente deixa marcas cuja cicatrização pode levar mais tempo que uma chaga aberta. Neste texto quis juntar "neurótico" com "ética", ficou "neurética", uma espécie de ética maluca que nos move e nos deixa, inclusive, fazer parte de abusos que poderiam ser evitados... Enfim, mistérios da alma...

Mariana Lange
Psicóloga

[1] Ver em AGRADECIMENTOS

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

DA JANELA – REAL E MIDIÁTICA


Continuamos assistindo pelos noticiários -janelas midiáticas - a abominável dominação masculina: Jovem de 15 anos é mantida refém pelo ex-namorado.

Já são quase dois dias de drama e mais de 40 horas de tensão. O ajudante de produção Lindenberg Fernandes, de 22 anos, mantém refém a ex-namorada de 15 anos, num conjunto habitacional em Santo André, na Grande São Paulo. No fim da noite de terça-feira (14), ele libertou a outra menina que estava em seu poder. (...) A polícia só chegou por volta das 21h de segunda-feira (13), quando o pai de um adolescente acionou a polícia porque veio buscar o filho no apartamento e foi ameaçado por Lindenberg. Ele já libertou dois rapazes na noite de segunda e uma amiga da ex-namorada na noite de terça-feira (14). Mas a ex-namorada Eloá, de 15 anos, continua sob poder dele. As janelas estão fechadas. Lindenberg ainda não fez qualquer tipo de contato. A polícia tentou por celular negociar a rendição. O seqüestrador pediu para que a luz fosse religada. O fornecimento, que tinha sido cortado às 16h, foi normalizado pouco antes das 23h. Em troca, uma das reféns foi solta. Naiara é amiga de Eloá, ex-namorada de Lindenberg. “Ela está bem, um pouquinho nervosa e abalada. Aparentemente ela não tem nenhuma marca”, disse Adriano Giovanini, capitão do Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar. Naiara disse à polícia que as duas foram amarradas e que viu o jovem agredir a ex-namorada. “Quem foi agredida foi a Eloá. A Naiara não foi. Agressão, chute, soco, puxar o cabelo, esse tipo de agressão”, contou um policial. (...)As adolescentes foram rendidas no começo da tarde de segunda-feira (13). O ajudante de produção Lindenberg Fernandes, de 22 anos, invadiu a casa de Eloá, de 15 anos, porque não se conformava com o fim do relacionamento. Segundo amigos de Eloá, Lindenberg era bastante ciumento, que costumava esperá-la na saída da escola. Desde a invasão, ele disparou quatro tiros. (...)
http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MUL799327-16020,00-JOVEM+E+MANTIDA+REFEM+POR+MAIS+DE+HORAS+EM+SAO+PAULO.html

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

AGRADECIMENTOS


Quero agradecer toda equipe Da Janela!
Nunca imaginava poder contar com profissionais de tamanha qualidade, e tão envolvidos para que o trabalho fique bom!
Ficará! Nós merecemos!
Desde o principio, me sentia guiada por sinais, que me estimulavam a prosseguir e apresentar esse tema tão delicado, através da sensibilidade da arte.
Em 2002, me foi revelado um “trauma”, (um estupro sofrido por uma garota em S J dos Pinhais – PR), depois já quando escrevia o roteiro, presenciei no trânsito a cem metros da minha casa, uma mulher sendo empurrada para dentro de um carro, (marido inconformado com separação tenta levar mulher a força de volta para casa). O projeto foi aprovado em 2005, porem a verba ainda demorou 3 anos para chegar, tempo suficiente para que eu mesma pudesse experimentar a violência conjugal psicológica, uma das mais injustas, pois não deixa marcas visíveis. E para finalizar, no dia mais delicado de gravação, surge um depoimento de uma assistente social, espectadora do páthos trágico de uma mulher mutilada pelo seu “marido”. Quer mais!
Na antiga Grécia, as tragédias mostravam que nenhuma cidade pode proteger o mortal contra a morte que nele habita.
“No substantivo páthos, no infinitivo pãnthein, é o padecer que se anuncia como condição mortal (...) Páthos é o que sofre, o sofrimento, mas também a experiência que, para os humanos se adquire somente na dor (...) é por ter sofrido que se compreende mas, tarde demais, se é verdade que a revelação só ocorre no fundo do desastre”. (LORAUX, 1992, P. 27) E começamos a nos perguntar, quem tira proveito do páthos trágico?
O espectador talvez!
É com este olhar e com esta preocupação que penso na arte como forma de exposição do páthos, recortando e emoldurando o que a sociedade tem recebido banalmente pelos noticiários.
Agradeço a imensa contribuição de todos! Somos a Equipe Da Janela, na busca de apresentar ao espectador uma forma sensível e cuidadosa desta triste realidade.
Será maravilhoso assistirmos a finalização desta “arte relacional” que juntou diversas pessoas, cada qual com sua participação, compondo uma narrativa dolorosa, porem poética.
Adorei trabalhar com todos vocês, não vamos nos perder, por favor!

Giovana Zimermann

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

CORRERIA

CORRERIA


No primeiro dia de filmagem, estava previsto uma cena em que o ator Luiz Claudio Leite, correria pela cidade. Apesar da polícia ter sido avisada, aconteceu um imprevisto. Quando ele se distanciou, pois na cena ele deveria vir de uma longa distância em direção a câmera, uma viatura parou justamente onde ele estava, e já se preparava para correr. Os policiais estavam abordando duas pessoas que consumiam drogas, e Claudio entendeu que se corresse ali, poderia estar encrencado, então nos ligou e comentou o imprevisto. Dirigimo-nos até o local, para comunicar aos policiais que estávamos realizando filmagens para um curta metragem e que o ator deveria correr em direção a câmera, apontamos para onde estava a equipe. A policial comentou: “se ele começasse correr aqui, sem avisar, iria para a parede”, depois de confirmar a autorização e reforçar que haveria uma “correria na região da Conselheiro Mafra” prosseguimos, conforme ilustração acima.

“Ao longo do filme a retomada ao espaço urbano, sempre é indicada por alguém olhando por uma janela, nesta cena o homem também olha para a cidade, mas se transporta para uma avenida a partir da sua íris, ele surge correndo em uma avenida”. Haverá uma música, “Fuga” um hip hop, que funcionará quase como um pensamento angustiado e ritmado.

Corre que corre que ele vai te pegar, corre que corre que ele vai te alcançar... (BANDA CURANDERA)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

LOCAÇÃO

CONSULTÓRIO LETRAS DA CLINICA: LOCAÇÃO CEDIDA POR ROSI, BEATRIZ E MARIANA AO CURTA “DA JANELA”

Giovana
Tenho acompanhado a construção do filme pelo blog. Adorei o roteiro! A história é ótima e o tema muito importante.
Fico contente que a janela do consultório possa dar lugar a estas outras narrativas. Trata-se de um lugar muito especial para mim, no qual tantas histórias são narradas, onde o traumático de alguma forma ganha uma possibilidade de representação, uma saída do mutismo muitas vezes imposto pela própria condição da situação violenta e traumática.
Desejo um bom trabalho a todos amanhã! Beijos,Beatriz

Querida Giovana
Fico contente em ver o trabalho se construindo e, de alguma forma, estamos fazendo parte dele.
Com carinho
Rosi

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

STILL


Linda Giovana
Espero que o seu dia esteja sendo bom também!
O meu começou muito cedo - acordei às 6h30 para "matar os leões" de hoje - mas com um gosto bom na boca. Vocês foram extremamente saborosos.

A equipe esta concisa, forte.
Todos sabendo bem de onde vieram e para onde estão indo.
Mas o mais importante: todos estão com muita vontade de estar ali!

Acredito que isso seja essencial para arte - a expressão artística é espontânea, e se depender da vontade da equipe DA JANELA, vocês já SÃO um filme muito bom!

Confesso que não trabalho do jeito que fiz ontem. Sou até bem prática, mas gosto de me sentir segura, estruturada (tripé, filtros, equipamento extra, etc).
Topei sem pensar e gostaria de ter feito um trabalho melhor, maior (ler roteiro antes, ouvir conversas de equipe, espiar bastante antes do ato), mas ambos éramos o que tínhamos, vocês me deram a informação que está ali, na esquina da Conselheiro Mafra com a Padre Roma, e eu tinha que ser o "still" que lhes faltava.

Eis que as cores, as sombras, as linhas e as formas fizeram o trabalho por si só.
E eu testemunhei.

Entrego o CD (cru, não vou visitar o Photoshop). Pra ser sincera, nem faz muito o meu estilo) Espero que gostem do resultado - eu gostei de qualquer maneira.

Outra coisa, acabo de receber uma notícia que pode ser boa: trabalho transferido em POA.
Se me quiserem, sou toda DA JANELA.

Para dar um gostinho, aqui vão algumas imagens da noite bonita que inaugurou outubro.

Grande beijo,
Anelise BORGES
01/10/2008

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DA JANELA

Marcos Santin
Ator

"Da Janela", título da obra que insinua seu propósito.

Fazer parte deste projeto muito me orgulha como ator, como homem social, como simples homem e homem simples. Desde sempre todos nós vimos, ouvimos ou vivemos algum dos milhares de tipos de violências à mulher, seja na rua, na escola, no televisor, no cinema. Tanto já foi dito sobre, que a ferida parece ser habitual e para alguns, infelizmente, aceitável. Dá-se a impressão que a violência contra a mulher, para deixar de ser socialmente banalizada é necessário que se sinta na pele, ou melhor, que alguém sinta na pele. Enquanto isto não acontecer, a "fulana" ou a "cicrana" que apanha ou se submete, nada passa de um acontecido da janela.

Pensar que cada um tem seu fardo, sua estória e que colhe o que se planta não é de todo errado, não podemos culpar inocentes ou assumir crimes alheios. Entretanto, diante do meio "social" e da afirmativa sapiens sapiens, calar-se e fingir que o problema não existe já é demais, literalmente é deixar de ser HUMANO. Assim sendo, voltamos a descoberta do fogo e sejamos felizes na circunstancia de que a força física predomina nas decisões de todo um grupo.

Façamos a nossa parte, quem está fazendo que pare de fazer e quem está olhando diga para parar de fazer. Quem sabe assim, um dia, todos sairemos da janela e caminharemos juntos na estrada.


domingo, 21 de setembro de 2008

A MARCA DA MALDADE


A MARCA DA MALDADE (depoimento de um membro da equipe Da Janela)

Não é título de filme, foi real, tão real quanto aquilo que um dia me obrigou a esquecer de mim.
Transgredir o corpo, deixando nele, apenas marcas de tristeza, solidão, culpa, desespero e vergonha.
Tão baixo, tão vil, tão sujo.
O inferno subiu à terra, os anjos desapareceram e o céu sempre nublado.
Ai! (alívio), acabou mais um dia.
Ai! (dor), iniciou outro.
Porque, por que, porquês...
Quando? Não sei...
Um grito sufocado rasga a alma.
Um pedido de socorro à Dona Morte.
Tem alguém me seguindo, tem alguém me destruindo
E ninguém acredita em mim, nem eu mesma.
Quem foi que trancou a porta, jogou num labirinto e botou fogo no mapa?
Ai! (longo suspiro), a maldade não é minha.
Desculpa, mas este presente não vou aceitar.
Muito obrigada, por nada.
Longe de mim, sempre e até nunca mais!
Deixou de existir.
Não foi nada, foi tudo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

DEPOIMENTO DE ATORES


Elianne Carpes
Atriz e preparadora dos atores do filme “Da Janela”

Insight após ensaio

Um roteiro.
Uma mulher apenas observa.
Um homem observa outra mulher e a agride.
Uma mulher é observada - e agredida.
Outro homem se nega a observar sua mulher e a agride.
Uma mulher é agredida pelo seu homem.

Uma reflexão.
Para além do jogo de palavras, a tentativa de encontrar o fio
condutor que liga histórias paralelas, recorrentes, intrigantes,
nos move.

Uma prática.
Atores a postos, vamos do lúdico ao visceral,
ora assumindo fantasias, levantando escudos;
ora derrubando ficções, pudores.

Um desejo.
Que pela 'Janela' lembremos da leveza e da força como
átomos de vida.
E jamais nos esqueçamos da serenidade como estrada.

Evoé!




Luiz Cláudio Leite
Ator


Esse trabalho está me fazendo refletir sobre os diversos tipos de relacionamentos existentes. Fico pensando como um homem pode agredir uma mulher a quem um dia disse que amava, desejava, e de uma hora para outra como se nada tivesse acontecido o desejo se transforma em agressão.
Ou seria isso a realização de um desejo? Sobrepujar o "oponente"...
Seria medo da força e independência da mulher?
Por que esse sentimento de posse?
Porque que a mulher não pensa e age como o carrasco quer?
Será que ela não tem direito a vontade própria?
Quando mais busco o sentimento de ódio, para fazer esse trabalho de forma orgânica, mais percebo a fragilidade física da mulher perante um homem. Mesmo emocionalmente pois algumas estão presas a elos que nem elas mesmas entendem.
Como disse Quintana "Cada um pensa como pode"...
Esta doença está presente em nossa sociedade de uma forma tão banalizada que não nos importamos. Mesmo para aqueles que se importam, pois não podemos generalizar, esses acabam não tendo força para dar um basta em toda esta doença existente na nossa sociedade.

sábado, 13 de setembro de 2008

VIDEO TESTE

video

VIDEO
Durante a produção do filme Da Janela, foram feitos alguns testes, para perceber a plasticidade destas imagens que a principio foram pensadas a partir da memória. O vídeo anexo é uma destas experiências

EXT – NOTURNO CHUVA – CENTRO FLORIANÓPOLIS/ CREDITOS

1.1 Câmera subjetiva, PM
É possível observar a cidade através do vidro molhado. Vemos imagens difusas porque chove e o limpador de pára-brisa está ligado, mesmo assim é possível ver luzes vultos.

ENSAIO


DIREÇÃO DE ATORES: SEBASTIÃO BRAGA
PREPARAÇÃO DE ATORES: ELIANNE CARPES
ELENCO: ELIANNE CARPES, MARTA CESAR,
LUIZ CLAUDIO LEITE, MARCOS JOSÉ SANTIN,
NOARA QUINTANA.

STORYBOARD


Storyboard é um roteiro desenhado, uma etapa importante na visualização da cena, um desenho-ferramenta, que acompanha a produção de um filme. Nos auxiliou na visualização na decupagem, onde discutimos a seqüência dos planos, os ângulos, o ritmo e a lógica do filme; Será importante também para orienta toda a produção: direção de arte e fotografia.
O fragmento de storyboard anexo, mostra parte do roteiro original, uma cenas de violência doméstica que irá se contrapor a uma cena de festividade.

SINOPSE E ABORDAGEM


SINOPSE

Fotógrafa pesquisa a violência contra a mulher através da janela de sua casa ou carro, seu “olho câmera” registra tudo. Os planos se cruzam, criando um universo onírico composto de cenas de violência simultâneas a cenas de uma festa, propiciando a reflexão de que ao mesmo tempo em que o espectador assiste ao filme, muitas mulheres anônimas são expostas à violência. Índices apontam que, no Brasil, a cada 4 minutos, uma mulher é agredida.


ABORDAGEM DO TEMA

Trata-se de uma composição inicialmente autobiográfica, na qual a diretora, que é artista plástica e trabalha com fotografia, escreve sobre a violência contra a mulher, motivada por um episodio verídico de estupro que lhe foi relatado, entre outros relatos que entrou em contato pelos jornais e no Presídio Feminino de Florianópolis, quando realizava um projeto intitulado: “Escreva a frase que te liberta” 2004. Ao passar do tempo, em favor de sua poética, o roteiro foi adquirindo um corpo ficcional, especialmente por desejar construir uma estética feminina e até certo ponto delicada apesar da densidade do assunto abordado.

O espectador levado ao enredo através de um túnel, com a intensão de criar um canal de tensão em torno no assunto. Inicia-se de fato, com um fragmento do filme “Irreversível” do diretor Gaspar Noé, que está sendo assistido pela protagonista, um filme que também aborda o tema da violência contra a mulher. Por se tratar de um curta-metragem, esta foi uma maneira de referência direta encontrada para introduzir o espectador na dencidade do assunto, bem como do foco de interesse da personagem: “fui preso porque transei com minha filha” (Irreversível). Inquieta com a cena de ficção, mas que reflete a realidade, a fotógrafa vai para a janela.

Da janela, leva o espectador a transitar por esse universo emaranhado de fragilidade e brutalidade através dos seus olhos e do seu imaginário. Há uma relação entre as janelas da casa ou do seu carro com o seu olho, que funciona como um “olho câmera”, pois é através dele, que estará recortando tudo o que vê. Cada vez que um personagem é visto por ela, constitui vida na trama, e sua história se torna independente do seu olhar.

Um exemplo é o homem do apartamento verde, ele também olha para a cidade através da janela. Ao longo do filme, a retomada do espaço urbano sempre é indicada por alguém olhando por uma janela, mas neste caso, o homem do apartamento verde se transporta para uma avenida a partir da sua íris, depois de um plano detalhe do seu olho esquerdo, ele surge em uma rua, correndo de dentro de sua íris. A idéia é falar das pessoas em conflito, correndo de si próprios e dos seus demônios.

No momento em que ele corre, haverá uma música que funcionará quase como um pensamento angustiado e ritmado, uma explosão de pensamentos narrando a confusão mental na qual ele se encontra.

“minha própria voz me chama... não consigo sentir paz... se a carne é forte sara, e se a alma é fraca, sangra... Aferente do motivo. Corre que corre que ele vai te pegar, corre que corre que ele vai te alcançar... Corre que corre que ele vai te pegar, corre que corre que ele vai te alcançar... tem alguém aí? Tem alguém aí?.” (FUGA - Curandera, banda de hip hop de Curitiba http://www.myspace.com/curanderasinkgroove)


O filme não trata só de vilões e de vítimas, mas de pessoas psicologicamente desestruturadas, abrindo uma possibilidade de reflexão sobre a criança que pode ser vítima ou espectadora da violência doméstica.

Os sons de conversas ou ruídos serão ou parecerão espontâneas, ruídos de conversas em apartamentos ou barulhos da rua, lembrando um pouco, “Asas do desejo” de Win Wenders.

Além das referências do cinema, outras são das artes plásticas, pois é daí que a personagem percebe o mundo, os planos se cruzam criando um universo onírico, composto de cenas de violência e cenas de festividade, ambas se contrapondo até mesmo pelo uso das cores complementares: vermelho/verde.

Um apartamento com a parede verde, e em seguida uma boate onde há uma festa, e nela predomina a cor vermelha. No apartamento haverá uma cena de agressão, e as duas cenas serão apresentadas simultâneas, fazendo uma referência direta a Peter Greenaway em “O cozinheiro, o ladrão sua mulher e o amante”.

Já, na rua, a fotógrafa repara em uma garçonete que sai do trabalho, este é o único momento que ela também é encarada por outra mulher, ironicamente uma muçulmana, porém com o olhar de uma mulher machadiana. No seu estereótipo, a intenção é abarcar toda a força e também a fragilidade das mulheres vítimas do fundamentalismo do talibã.

Apesar de falar de violência, o tratamento ao assunto é bastante sutil, não abusando do apelo da “violência pela violência”, mas explorando das imagens, soluções plásticas para falar do assunto e também do descaso. Ocorre, um estupro em um beco, em pleno centro da cidade, no entanto, ninguém vai à janela, os carros passam, todos se omitem, a vida continua.