segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DA JANELA

Marcos Santin
Ator

"Da Janela", título da obra que insinua seu propósito.

Fazer parte deste projeto muito me orgulha como ator, como homem social, como simples homem e homem simples. Desde sempre todos nós vimos, ouvimos ou vivemos algum dos milhares de tipos de violências à mulher, seja na rua, na escola, no televisor, no cinema. Tanto já foi dito sobre, que a ferida parece ser habitual e para alguns, infelizmente, aceitável. Dá-se a impressão que a violência contra a mulher, para deixar de ser socialmente banalizada é necessário que se sinta na pele, ou melhor, que alguém sinta na pele. Enquanto isto não acontecer, a "fulana" ou a "cicrana" que apanha ou se submete, nada passa de um acontecido da janela.

Pensar que cada um tem seu fardo, sua estória e que colhe o que se planta não é de todo errado, não podemos culpar inocentes ou assumir crimes alheios. Entretanto, diante do meio "social" e da afirmativa sapiens sapiens, calar-se e fingir que o problema não existe já é demais, literalmente é deixar de ser HUMANO. Assim sendo, voltamos a descoberta do fogo e sejamos felizes na circunstancia de que a força física predomina nas decisões de todo um grupo.

Façamos a nossa parte, quem está fazendo que pare de fazer e quem está olhando diga para parar de fazer. Quem sabe assim, um dia, todos sairemos da janela e caminharemos juntos na estrada.


domingo, 21 de setembro de 2008

A MARCA DA MALDADE


A MARCA DA MALDADE (depoimento de um membro da equipe Da Janela)

Não é título de filme, foi real, tão real quanto aquilo que um dia me obrigou a esquecer de mim.
Transgredir o corpo, deixando nele, apenas marcas de tristeza, solidão, culpa, desespero e vergonha.
Tão baixo, tão vil, tão sujo.
O inferno subiu à terra, os anjos desapareceram e o céu sempre nublado.
Ai! (alívio), acabou mais um dia.
Ai! (dor), iniciou outro.
Porque, por que, porquês...
Quando? Não sei...
Um grito sufocado rasga a alma.
Um pedido de socorro à Dona Morte.
Tem alguém me seguindo, tem alguém me destruindo
E ninguém acredita em mim, nem eu mesma.
Quem foi que trancou a porta, jogou num labirinto e botou fogo no mapa?
Ai! (longo suspiro), a maldade não é minha.
Desculpa, mas este presente não vou aceitar.
Muito obrigada, por nada.
Longe de mim, sempre e até nunca mais!
Deixou de existir.
Não foi nada, foi tudo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

DEPOIMENTO DE ATORES


Elianne Carpes
Atriz e preparadora dos atores do filme “Da Janela”

Insight após ensaio

Um roteiro.
Uma mulher apenas observa.
Um homem observa outra mulher e a agride.
Uma mulher é observada - e agredida.
Outro homem se nega a observar sua mulher e a agride.
Uma mulher é agredida pelo seu homem.

Uma reflexão.
Para além do jogo de palavras, a tentativa de encontrar o fio
condutor que liga histórias paralelas, recorrentes, intrigantes,
nos move.

Uma prática.
Atores a postos, vamos do lúdico ao visceral,
ora assumindo fantasias, levantando escudos;
ora derrubando ficções, pudores.

Um desejo.
Que pela 'Janela' lembremos da leveza e da força como
átomos de vida.
E jamais nos esqueçamos da serenidade como estrada.

Evoé!




Luiz Cláudio Leite
Ator


Esse trabalho está me fazendo refletir sobre os diversos tipos de relacionamentos existentes. Fico pensando como um homem pode agredir uma mulher a quem um dia disse que amava, desejava, e de uma hora para outra como se nada tivesse acontecido o desejo se transforma em agressão.
Ou seria isso a realização de um desejo? Sobrepujar o "oponente"...
Seria medo da força e independência da mulher?
Por que esse sentimento de posse?
Porque que a mulher não pensa e age como o carrasco quer?
Será que ela não tem direito a vontade própria?
Quando mais busco o sentimento de ódio, para fazer esse trabalho de forma orgânica, mais percebo a fragilidade física da mulher perante um homem. Mesmo emocionalmente pois algumas estão presas a elos que nem elas mesmas entendem.
Como disse Quintana "Cada um pensa como pode"...
Esta doença está presente em nossa sociedade de uma forma tão banalizada que não nos importamos. Mesmo para aqueles que se importam, pois não podemos generalizar, esses acabam não tendo força para dar um basta em toda esta doença existente na nossa sociedade.

sábado, 13 de setembro de 2008

VIDEO TESTE

video

VIDEO
Durante a produção do filme Da Janela, foram feitos alguns testes, para perceber a plasticidade destas imagens que a principio foram pensadas a partir da memória. O vídeo anexo é uma destas experiências

EXT – NOTURNO CHUVA – CENTRO FLORIANÓPOLIS/ CREDITOS

1.1 Câmera subjetiva, PM
É possível observar a cidade através do vidro molhado. Vemos imagens difusas porque chove e o limpador de pára-brisa está ligado, mesmo assim é possível ver luzes vultos.

ENSAIO


DIREÇÃO DE ATORES: SEBASTIÃO BRAGA
PREPARAÇÃO DE ATORES: ELIANNE CARPES
ELENCO: ELIANNE CARPES, MARTA CESAR,
LUIZ CLAUDIO LEITE, MARCOS JOSÉ SANTIN,
NOARA QUINTANA.

STORYBOARD


Storyboard é um roteiro desenhado, uma etapa importante na visualização da cena, um desenho-ferramenta, que acompanha a produção de um filme. Nos auxiliou na visualização na decupagem, onde discutimos a seqüência dos planos, os ângulos, o ritmo e a lógica do filme; Será importante também para orienta toda a produção: direção de arte e fotografia.
O fragmento de storyboard anexo, mostra parte do roteiro original, uma cenas de violência doméstica que irá se contrapor a uma cena de festividade.

SINOPSE E ABORDAGEM


SINOPSE

Fotógrafa pesquisa a violência contra a mulher através da janela de sua casa ou carro, seu “olho câmera” registra tudo. Os planos se cruzam, criando um universo onírico composto de cenas de violência simultâneas a cenas de uma festa, propiciando a reflexão de que ao mesmo tempo em que o espectador assiste ao filme, muitas mulheres anônimas são expostas à violência. Índices apontam que, no Brasil, a cada 4 minutos, uma mulher é agredida.


ABORDAGEM DO TEMA

Trata-se de uma composição inicialmente autobiográfica, na qual a diretora, que é artista plástica e trabalha com fotografia, escreve sobre a violência contra a mulher, motivada por um episodio verídico de estupro que lhe foi relatado, entre outros relatos que entrou em contato pelos jornais e no Presídio Feminino de Florianópolis, quando realizava um projeto intitulado: “Escreva a frase que te liberta” 2004. Ao passar do tempo, em favor de sua poética, o roteiro foi adquirindo um corpo ficcional, especialmente por desejar construir uma estética feminina e até certo ponto delicada apesar da densidade do assunto abordado.

O espectador levado ao enredo através de um túnel, com a intensão de criar um canal de tensão em torno no assunto. Inicia-se de fato, com um fragmento do filme “Irreversível” do diretor Gaspar Noé, que está sendo assistido pela protagonista, um filme que também aborda o tema da violência contra a mulher. Por se tratar de um curta-metragem, esta foi uma maneira de referência direta encontrada para introduzir o espectador na dencidade do assunto, bem como do foco de interesse da personagem: “fui preso porque transei com minha filha” (Irreversível). Inquieta com a cena de ficção, mas que reflete a realidade, a fotógrafa vai para a janela.

Da janela, leva o espectador a transitar por esse universo emaranhado de fragilidade e brutalidade através dos seus olhos e do seu imaginário. Há uma relação entre as janelas da casa ou do seu carro com o seu olho, que funciona como um “olho câmera”, pois é através dele, que estará recortando tudo o que vê. Cada vez que um personagem é visto por ela, constitui vida na trama, e sua história se torna independente do seu olhar.

Um exemplo é o homem do apartamento verde, ele também olha para a cidade através da janela. Ao longo do filme, a retomada do espaço urbano sempre é indicada por alguém olhando por uma janela, mas neste caso, o homem do apartamento verde se transporta para uma avenida a partir da sua íris, depois de um plano detalhe do seu olho esquerdo, ele surge em uma rua, correndo de dentro de sua íris. A idéia é falar das pessoas em conflito, correndo de si próprios e dos seus demônios.

No momento em que ele corre, haverá uma música que funcionará quase como um pensamento angustiado e ritmado, uma explosão de pensamentos narrando a confusão mental na qual ele se encontra.

“minha própria voz me chama... não consigo sentir paz... se a carne é forte sara, e se a alma é fraca, sangra... Aferente do motivo. Corre que corre que ele vai te pegar, corre que corre que ele vai te alcançar... Corre que corre que ele vai te pegar, corre que corre que ele vai te alcançar... tem alguém aí? Tem alguém aí?.” (FUGA - Curandera, banda de hip hop de Curitiba http://www.myspace.com/curanderasinkgroove)


O filme não trata só de vilões e de vítimas, mas de pessoas psicologicamente desestruturadas, abrindo uma possibilidade de reflexão sobre a criança que pode ser vítima ou espectadora da violência doméstica.

Os sons de conversas ou ruídos serão ou parecerão espontâneas, ruídos de conversas em apartamentos ou barulhos da rua, lembrando um pouco, “Asas do desejo” de Win Wenders.

Além das referências do cinema, outras são das artes plásticas, pois é daí que a personagem percebe o mundo, os planos se cruzam criando um universo onírico, composto de cenas de violência e cenas de festividade, ambas se contrapondo até mesmo pelo uso das cores complementares: vermelho/verde.

Um apartamento com a parede verde, e em seguida uma boate onde há uma festa, e nela predomina a cor vermelha. No apartamento haverá uma cena de agressão, e as duas cenas serão apresentadas simultâneas, fazendo uma referência direta a Peter Greenaway em “O cozinheiro, o ladrão sua mulher e o amante”.

Já, na rua, a fotógrafa repara em uma garçonete que sai do trabalho, este é o único momento que ela também é encarada por outra mulher, ironicamente uma muçulmana, porém com o olhar de uma mulher machadiana. No seu estereótipo, a intenção é abarcar toda a força e também a fragilidade das mulheres vítimas do fundamentalismo do talibã.

Apesar de falar de violência, o tratamento ao assunto é bastante sutil, não abusando do apelo da “violência pela violência”, mas explorando das imagens, soluções plásticas para falar do assunto e também do descaso. Ocorre, um estupro em um beco, em pleno centro da cidade, no entanto, ninguém vai à janela, os carros passam, todos se omitem, a vida continua.