sábado, 13 de setembro de 2008

SINOPSE E ABORDAGEM


SINOPSE

Fotógrafa pesquisa a violência contra a mulher através da janela de sua casa ou carro, seu “olho câmera” registra tudo. Os planos se cruzam, criando um universo onírico composto de cenas de violência simultâneas a cenas de uma festa, propiciando a reflexão de que ao mesmo tempo em que o espectador assiste ao filme, muitas mulheres anônimas são expostas à violência. Índices apontam que, no Brasil, a cada 4 minutos, uma mulher é agredida.


ABORDAGEM DO TEMA

Trata-se de uma composição inicialmente autobiográfica, na qual a diretora, que é artista plástica e trabalha com fotografia, escreve sobre a violência contra a mulher, motivada por um episodio verídico de estupro que lhe foi relatado, entre outros relatos que entrou em contato pelos jornais e no Presídio Feminino de Florianópolis, quando realizava um projeto intitulado: “Escreva a frase que te liberta” 2004. Ao passar do tempo, em favor de sua poética, o roteiro foi adquirindo um corpo ficcional, especialmente por desejar construir uma estética feminina e até certo ponto delicada apesar da densidade do assunto abordado.

O espectador levado ao enredo através de um túnel, com a intensão de criar um canal de tensão em torno no assunto. Inicia-se de fato, com um fragmento do filme “Irreversível” do diretor Gaspar Noé, que está sendo assistido pela protagonista, um filme que também aborda o tema da violência contra a mulher. Por se tratar de um curta-metragem, esta foi uma maneira de referência direta encontrada para introduzir o espectador na dencidade do assunto, bem como do foco de interesse da personagem: “fui preso porque transei com minha filha” (Irreversível). Inquieta com a cena de ficção, mas que reflete a realidade, a fotógrafa vai para a janela.

Da janela, leva o espectador a transitar por esse universo emaranhado de fragilidade e brutalidade através dos seus olhos e do seu imaginário. Há uma relação entre as janelas da casa ou do seu carro com o seu olho, que funciona como um “olho câmera”, pois é através dele, que estará recortando tudo o que vê. Cada vez que um personagem é visto por ela, constitui vida na trama, e sua história se torna independente do seu olhar.

Um exemplo é o homem do apartamento verde, ele também olha para a cidade através da janela. Ao longo do filme, a retomada do espaço urbano sempre é indicada por alguém olhando por uma janela, mas neste caso, o homem do apartamento verde se transporta para uma avenida a partir da sua íris, depois de um plano detalhe do seu olho esquerdo, ele surge em uma rua, correndo de dentro de sua íris. A idéia é falar das pessoas em conflito, correndo de si próprios e dos seus demônios.

No momento em que ele corre, haverá uma música que funcionará quase como um pensamento angustiado e ritmado, uma explosão de pensamentos narrando a confusão mental na qual ele se encontra.

“minha própria voz me chama... não consigo sentir paz... se a carne é forte sara, e se a alma é fraca, sangra... Aferente do motivo. Corre que corre que ele vai te pegar, corre que corre que ele vai te alcançar... Corre que corre que ele vai te pegar, corre que corre que ele vai te alcançar... tem alguém aí? Tem alguém aí?.” (FUGA - Curandera, banda de hip hop de Curitiba http://www.myspace.com/curanderasinkgroove)


O filme não trata só de vilões e de vítimas, mas de pessoas psicologicamente desestruturadas, abrindo uma possibilidade de reflexão sobre a criança que pode ser vítima ou espectadora da violência doméstica.

Os sons de conversas ou ruídos serão ou parecerão espontâneas, ruídos de conversas em apartamentos ou barulhos da rua, lembrando um pouco, “Asas do desejo” de Win Wenders.

Além das referências do cinema, outras são das artes plásticas, pois é daí que a personagem percebe o mundo, os planos se cruzam criando um universo onírico, composto de cenas de violência e cenas de festividade, ambas se contrapondo até mesmo pelo uso das cores complementares: vermelho/verde.

Um apartamento com a parede verde, e em seguida uma boate onde há uma festa, e nela predomina a cor vermelha. No apartamento haverá uma cena de agressão, e as duas cenas serão apresentadas simultâneas, fazendo uma referência direta a Peter Greenaway em “O cozinheiro, o ladrão sua mulher e o amante”.

Já, na rua, a fotógrafa repara em uma garçonete que sai do trabalho, este é o único momento que ela também é encarada por outra mulher, ironicamente uma muçulmana, porém com o olhar de uma mulher machadiana. No seu estereótipo, a intenção é abarcar toda a força e também a fragilidade das mulheres vítimas do fundamentalismo do talibã.

Apesar de falar de violência, o tratamento ao assunto é bastante sutil, não abusando do apelo da “violência pela violência”, mas explorando das imagens, soluções plásticas para falar do assunto e também do descaso. Ocorre, um estupro em um beco, em pleno centro da cidade, no entanto, ninguém vai à janela, os carros passam, todos se omitem, a vida continua.

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